The gunpowder
treason and
plot
I see
no reason why the gunpowder treason
Should
ever be
forgot
O post de hoje é dedicado a
V for Vendetta, uma HQ de 10 volumes, de autoria de Alan Moore e desenhada por David Lloyd, publicada durante os anos 80 e que se passa na Inglaterra após uma guerra nuclear limitada, onde um partido fascista tomou o poder. A história é centrada em "V", um revolucionário mascarado e misterioso que prepara uma campanha para derrubar o governo, e nas vidas que ele toca, notadamente a de Evey.
AVISO: Esse post
contém spoilers. Se você nunca leu mas é curioso, tem também o link para download das 10 HQs caso prefira ler antes:
Download V for Vendetta.
(Estão em inglês)
Para abrir os arquivos use:
CDisplay
Agora de volta à HQ: O personagem central, V, é um personagem extremamente dúbio. Em alguns momentos, ele parece um herói, em outros, um louco. Porém, uma coisa é clara: uma idéia é a coisa mais valiosa do mundo. Não pode ser destruída, não importa a força que a tente esmagar. A idéia de se libertar de uma força autoritária, aqui encarnada em V na forma de anarquia, é exatamente a que se propõe a história.
Sem mais delongas, vamos ao que realmente interessa. Num panorama um tanto quanto Orwelliano, o governo vigia e
manipula todos através de 5 órgãos, cada um representando um sentido: O Olho (a vigilância), o Ouvido (escutas), a Boca (comunicação com as massas, principalmente representado por Lewis Prothero e seu programa de rádio, "A voz do Destino"), o Nariz (investigações) e a Mão (encarregada de punir os infratores). E através de lemas como "Força pela
Unidade. Unidade pela
Fé", o governo mantém seu viés altamente conservador-religioso, uma referência clara ao eixo Reagan-Thatcher que se estabeleceu como dominante nos anos 80.
Eis que, na noite de 05 de novembro de 1997, Evey se oferece como garota-de-programa a membros do Dedo, que então decidem estuprá-la para depois matá-la. V, usando sua habitual máscara de Guy Fawkes, salva Evey e a leva a um telhado, de onde ele detona uma bomba no então abandonado Palácio de Westminster, simulando o fracassado "Gunpowder Plot" de 1605, no qual um grupo de conspiradores tentou matar o Rei James I (Guy Fawkes incluído entre eles). Posteriormente, ambos vão à casa secreta de V, a "Galeria das Sombras".
Depois disso, vemos duas visões distintas que os homens têm sobre a
Justiça. A primeira, de Adam J. Susam, "O Líder", convicto de que a disciplina é o meio mais
eficiente de atingir a ordem, diz que as liberdades civis são algo
perigoso e
desnecessário, pois podem fazer com que a disciplina se perca. Adam ama a justiça porque ele pode subvertê-la como uma esposa submissa. A segunda, é de V. Desde criança, V sempre fora um apaixonado pela Justiça e esta era sua musa. Até que percebeu que a Justiça tinha uma queda por homens de
farda, e então conheceu sua amante, a
Anarquia. Honesta, e que
não faz promessas (e por isso não as quebra) e que o ensinou que Justiça não significa
nada sem Liberdade. E não significa
nada de fato. A justiça das ditaduras é
rápida, mas os porões das masmorras ficam
abarrotados de gente que falou alto suas críticas. A justiça é influenciável, uma
verdadeira prostituta no meio do jogo, se entregando a quem lhe oferecer mais. Essa não é a
Justiça que deve ser amada.
A seguir, V se confronta com 3 altos membros do Partido e, acusando-os de atrocidades passadas, os mata: Lewis Prothero ("a voz do Destino" e ex-diretor do campo de concentração de
Larkhill), o bispo Anthony Lilliman, pedófilo e a voz do Partido na igreja, e a dra. Delia Surridge. Cada um de acordo com suas características em vida: Prothero, um colecionador de bonecas, enlouquece e acaba "se tornando uma", o bispo é forçado a engolir uma hóstia de cianeto e a dra. Surridge recebe uma injeção letal. Através do diário dela, vemos que ela
trabalhou em experimentos hormonais no Campo de Larkhill e que V era um dos prisioneiros na época em que Prothero era o diretor. Um dos 5 sobreviventes, V é colocado na sala V e, enquanto cuidava da horta com produtos químicos como
amônia e
nitrato, conseguiu fazer gás mostarda e napalm para explodir sua cela e conseguir fugir. O diário da dra. Surridge foi colocado à vista e com páginas que podiam conter informações sobre sua identidade
arrancadas. Pesquisando, Finch, o detetive, descobre que V esteve encarregado de matar
todas as pessoas que trabalharam em Larkhill enquanto ele estava lá. Todos,
sem exceção.
Nesse ponto, temos uma parte WOW! Finch entende que, apesar de
parecer que a vingança de V está completa, ela está apenas começando. Sem ninguém para identificá-lo, V se torna aquilo que ele mais valoriza: uma
idéia. Não adianta mais matá-lo, assim como
não importa mais sua identidade, pois ele se tornou um símbolo. Já se tornou
imortal e sua voz já se
infiltrou no povo, questionando o governo autoritário e sabendo que "Justiça não significa nada sem liberdade". E quando se chega a esse ponto, não há mais como deter a revolta iminente. V atinge seu objetivo, mesmo não tendo sido ele o responsável
direto.
PORRA! Isso é muito foda! E é por isso que eu fico PUTO com gente dizendo que achou ruim o V não tirar a máscara em momento nenhum. E isso aí é só o início, não conto mais para não estragar o de quem for ler, mas o negócio é de uma genialidade tão grande que... PORRA!
Sem falar na eterna ambiguidade de V. Um herói? Um louco? Visionário ou apenas vingativo? Acreditando em algo maior ou apenas mais um querendo o melhor para si? Estava fazendo de Evey um fantoche ou realmente queria mostrar que uma idéia era imortal? E se o autor não propõe um jeito "certo" de se pensar o personagem central da sua trama, não estaria propondo um conceito um tanto quanto anarquista para sua história? E isso não é genial?
"I didn't put you in prison, Evey... I just showed you the bars"
(continuação da parte da estátua:
link 1,
link 2,
link 3,
link 4)
Resumo da ópera: Leiam V for Vendetta, é foda pra caralho! Literatura obrigatória dentre as HQs que vão ficar marcadas para sempre.