quinta-feira, 24 de junho de 2010

WTF Day!

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É, amiguinhos. Nada como um dia tenso. Apesar de todos os esforços, não há nada a se fazer quando tudo e todos resolvem te trollar. A última terça-feira, 22/06, foi um exemplo desses dias. E ouvindo a voz de deus Lemmy eu venho contar a vocês tal odisséia.

Começando logo o dia com uma belíssima aula de Transferência de Calor, que nos mostrou o quanto vamos ter que suar pra passar nessa porcaria. Logo após a aula, corri no Zubatmóvel de volta pra Vila Velha pra tentar tirar carteira de trabalho. Chegando ao centro, começou a maior quest dos tempos modernos: a busca por uma vaga.

(Cidadão de Vila Velha que também desistiu de procurar vaga)

Tive que parar o carro um tanto quanto longe. Mas, persistente que sou, fui lá de novo (pois já havia ido e me informaram que o sistema estava fora do ar). Novamente, me afirmaram o mesmo, mas sem previsão para o sistema voltar ao ar. Que ótimo, eu teria que ir até Vitória em busca disso. Zubatmóvel entraria em ação novamente.

Depois de muito me informar e olhar no Google Maps onde seria, descobri que o lugar ficava numa avenida realmente apertada e, com isso, obviamente sem vagas. Mãs, como eu tinha que ir pra UFES depois mesmo, lá fui eu já rezando para o deus imaginário me conceder algo do tipo:


Mas, como no ES nem tudo são flores, o óbvio aconteceu: fui parar a quase 1 km de distância do meu objetivo (que eu achei com uma senhora facilidade), usando toda minha cara-de-pau para deixar o carro num posto de gasolina enquanto fazia todo o caminho de volta no sol escaldante capixaba.

Chegando enfim ao "Centro Integrado de Cidadania", fui lá e perguntei da Carteira de Trabalho e a mulher: "Só estamos fazendo de quem mora em Vitória, porque o Ministério do Trabalho está de greve..."

E nessa hora eu penso "MAS QUE IRONIA, HEIN?", me segurando para não proferir as palavras em voz alta. Fiquei tão puto com isso que me deu vontade de xingar muito no twitter. E ela ainda me diz, com uma coolface danada, que no centro de Vitória tem outro posto. Excelente idéia não fosse o fato de ser absolutamente impossível estacionar lá.

Prosseguindo o dia, vim para o meu emprego (que devo deixar dia 30) para ouvir as típicas frases do pessoal da Eng. de Produção. Felizmente, foi a parte tranquila do meu dia, estudando pra prova de termodinâmica e tomando café. Uma vez liberado, fui a outro laboratório prosseguir com meus estudos e ajudar o RC. no traablho de Estruturas de Dados I e, quando este laboratório fechou, fomos até a biblioteca no Zubatmóvel. Ao sair dele, RC disse "vou levar meu notebook pra terminar o trabalho" e deixou mochila e casaco em cima do banco.

Terminados os estudos (embora eles não tivessem sido tão satisfatórios assim), decidimos ir embora da biblioteca. Eis que, chegando ao carro e abrindo a porta do carona, RC exclama: "Cadê minha mochila?!"

Fucking gone! Simplesmente desaparecida. Depois do momento inicial de procurar embaixo do banco, verifiquei outras coisas que estavam no carro, como o dinheiro do moedeiro, o som e os documentos do carro, além dos vidros. Tudo intacto. Não mexeram em mais nada a não ser a mochila e o casaco dele. Como assim? Totalmente não-solucianadas me apareceram 2 perguntas:

1 - Como conseguiram entrar no carro?

2 - Por que levar só uma mochila e um casaco?

Uma possibilidade, pra mim a única que poderia explicar ambas, é:


NINJAS!
Quem mais seria capaz de fazer algo assim com tamanha destreza? Quem mais faria algo assim aparentemente sem motivação alguma e para surrupiar algo sem valor? É por isso que eu digo, tome cuidado, pode haver um ninja à espreita, apenas esperando o momento certo de afanar sua mochila, ou o cadarço do seu tênis ou, quem sabe, até mesmo sua tigela de cereais!

Ficando por aqui com as sinceras condolências ao RC pelos objetos perdidos. Até mais, pessoas.


Obs.: A ironia quanto ao Ministério do Trabalho não quer dizer que eu ache que eles não têm os mesmos direitos trabalhistas e bla bla bla, apenas acho que a greve num órgão com esse nome é algo irônico. Seria até engraçado se eu não estivesse tomando na cabeça no meio tempo.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Remember, remember, the 5th of November

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The gunpowder treason and plot
I see no reason why the gunpowder treason
Should ever be forgot

O post de hoje é dedicado a V for Vendetta, uma HQ de 10 volumes, de autoria de Alan Moore e desenhada por David Lloyd, publicada durante os anos 80 e que se passa na Inglaterra após uma guerra nuclear limitada, onde um partido fascista tomou o poder. A história é centrada em "V", um revolucionário mascarado e misterioso que prepara uma campanha para derrubar o governo, e nas vidas que ele toca, notadamente a de Evey.

AVISO: Esse post contém spoilers. Se você nunca leu mas é curioso, tem também o link para download das 10 HQs caso prefira ler antes: Download V for Vendetta.
(Estão em inglês)
Para abrir os arquivos use: CDisplay

Agora de volta à HQ: O personagem central, V, é um personagem extremamente dúbio. Em alguns momentos, ele parece um herói, em outros, um louco. Porém, uma coisa é clara: uma idéia é a coisa mais valiosa do mundo. Não pode ser destruída, não importa a força que a tente esmagar. A idéia de se libertar de uma força autoritária, aqui encarnada em V na forma de anarquia, é exatamente a que se propõe a história.

Sem mais delongas, vamos ao que realmente interessa. Num panorama um tanto quanto Orwelliano, o governo vigia e manipula todos através de 5 órgãos, cada um representando um sentido: O Olho (a vigilância), o Ouvido (escutas), a Boca (comunicação com as massas, principalmente representado por Lewis Prothero e seu programa de rádio, "A voz do Destino"), o Nariz (investigações) e a Mão (encarregada de punir os infratores). E através de lemas como "Força pela Unidade. Unidade pela ", o governo mantém seu viés altamente conservador-religioso, uma referência clara ao eixo Reagan-Thatcher que se estabeleceu como dominante nos anos 80.

Eis que, na noite de 05 de novembro de 1997, Evey se oferece como garota-de-programa a membros do Dedo, que então decidem estuprá-la para depois matá-la. V, usando sua habitual máscara de Guy Fawkes, salva Evey e a leva a um telhado, de onde ele detona uma bomba no então abandonado Palácio de Westminster, simulando o fracassado "Gunpowder Plot" de 1605, no qual um grupo de conspiradores tentou matar o Rei James I (Guy Fawkes incluído entre eles). Posteriormente, ambos vão à casa secreta de V, a "Galeria das Sombras".

Depois disso, vemos duas visões distintas que os homens têm sobre a Justiça. A primeira, de Adam J. Susam, "O Líder", convicto de que a disciplina é o meio mais eficiente de atingir a ordem, diz que as liberdades civis são algo perigoso e desnecessário, pois podem fazer com que a disciplina se perca. Adam ama a justiça porque ele pode subvertê-la como uma esposa submissa. A segunda, é de V. Desde criança, V sempre fora um apaixonado pela Justiça e esta era sua musa. Até que percebeu que a Justiça tinha uma queda por homens de farda, e então conheceu sua amante, a Anarquia. Honesta, e que não faz promessas (e por isso não as quebra) e que o ensinou que Justiça não significa nada sem Liberdade. E não significa nada de fato. A justiça das ditaduras é rápida, mas os porões das masmorras ficam abarrotados de gente que falou alto suas críticas. A justiça é influenciável, uma verdadeira prostituta no meio do jogo, se entregando a quem lhe oferecer mais. Essa não é a Justiça que deve ser amada.

A seguir, V se confronta com 3 altos membros do Partido e, acusando-os de atrocidades passadas, os mata: Lewis Prothero ("a voz do Destino" e ex-diretor do campo de concentração de Larkhill), o bispo Anthony Lilliman, pedófilo e a voz do Partido na igreja, e a dra. Delia Surridge. Cada um de acordo com suas características em vida: Prothero, um colecionador de bonecas, enlouquece e acaba "se tornando uma", o bispo é forçado a engolir uma hóstia de cianeto e a dra. Surridge recebe uma injeção letal. Através do diário dela, vemos que ela trabalhou em experimentos hormonais no Campo de Larkhill e que V era um dos prisioneiros na época em que Prothero era o diretor. Um dos 5 sobreviventes, V é colocado na sala V e, enquanto cuidava da horta com produtos químicos como amônia e nitrato, conseguiu fazer gás mostarda e napalm para explodir sua cela e conseguir fugir. O diário da dra. Surridge foi colocado à vista e com páginas que podiam conter informações sobre sua identidade arrancadas. Pesquisando, Finch, o detetive, descobre que V esteve encarregado de matar todas as pessoas que trabalharam em Larkhill enquanto ele estava lá. Todos, sem exceção.

Nesse ponto, temos uma parte WOW! Finch entende que, apesar de parecer que a vingança de V está completa, ela está apenas começando. Sem ninguém para identificá-lo, V se torna aquilo que ele mais valoriza: uma idéia. Não adianta mais matá-lo, assim como não importa mais sua identidade, pois ele se tornou um símbolo. Já se tornou imortal e sua voz já se infiltrou no povo, questionando o governo autoritário e sabendo que "Justiça não significa nada sem liberdade". E quando se chega a esse ponto, não há mais como deter a revolta iminente. V atinge seu objetivo, mesmo não tendo sido ele o responsável direto.


PORRA! Isso é muito foda! E é por isso que eu fico PUTO com gente dizendo que achou ruim o V não tirar a máscara em momento nenhum. E isso aí é só o início, não conto mais para não estragar o de quem for ler, mas o negócio é de uma genialidade tão grande que... PORRA!

Sem falar na eterna ambiguidade de V. Um herói? Um louco? Visionário ou apenas vingativo? Acreditando em algo maior ou apenas mais um querendo o melhor para si? Estava fazendo de Evey um fantoche ou realmente queria mostrar que uma idéia era imortal? E se o autor não propõe um jeito "certo" de se pensar o personagem central da sua trama, não estaria propondo um conceito um tanto quanto anarquista para sua história? E isso não é genial?


"I didn't put you in prison, Evey... I just showed you the bars"

(continuação da parte da estátua: link 1, link 2, link 3, link 4)

Resumo da ópera: Leiam V for Vendetta, é foda pra caralho! Literatura obrigatória dentre as HQs que vão ficar marcadas para sempre.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Complexidade lírica é rara hoje em dia.

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Acho que isso é uma verdade inquestionável no cenário musical atual. Enquanto no mainstream americano os "motherfuckers" reinam cada vez mais soberanos com suas letras que seriam dignas de um funk brasileiro da pior classe e as cantoras bundudas desfilam com letras são vazias quanto seus crânios, no brasileiro, vemos a tal Família Restart com seu "rock" colorido e a eterna junção axé-funk-sertanejo-pagode nos contamina. Pior ainda se você morar no meu Estado, que está cercado por Bahia, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Já viu a lambança, né?


E é nesse contexto desesperador que eu faço o post de hoje. E é também sobre desespero que ele fala. Falo hoje de uma música que ouvi ano passado e ainda me impressiona bastante. Ela se chama "Cruel Mistress", da banda de celtic punk originada em LA e capitaneada pelo dubliner Dave King: Flogging Molly.

(Irish Badassery)

Infelizmente, eu não consigo achar uma versão ao vivo dessa música, o que me faz crer que não seja muito popular, mas eu falo dela mesmo assim. Aqui um vídeo com a versão dela de estúdio:

Next time out to sea bring enough soil to bury me
For I don't want my final jig in the belly of a squid
Take my trousers take my shirt, just give me that sweet dirt
For the water's cold and grim and I never did learn to swim

No her love never set me free so I set off for the ocean
Now in my dreams she comes to me whispering of peace
But I've known since the day that we sailed for Santiago
Her dry embrace would kiss my face
No never, no more

The Sea is a Cruel Mistress
The Sea is a Cruel Mistress

Many moons to the day that I threw her love away
Now every whale spouts,"go to hell" as the wind laughs in my face
I've grown harder on the eyes and salty on the taste
My pride has gone with the wake as I wait a cold wet grave

I rose to the smell of a wet desert hell
And I thought to myself how'd I wind up in this jail
Till a voice called to me from deep within the sea
'Dry your eyes my dear fisherman Your ass belongs to me!'

The Sea is a Cruel Mistress
The Sea is a Cruel Mistress

The earth will rest my bones
Lord I know, Lord I know
But I'll see you when I get home
From the cold, yeah from the cold


Fala sério, só olha essa letra de cima e me diz se isso não é um retrato assustador e perfeito de um homem que entrou em completo desespero após perder a esperança de reencontrar o amor da sua vida? Pra falar a verdade eu não sei nem de onde começar a analisar, mas vamos por estrofes:

1. Next time out to sea, bring enough soil to bury me
- da próxima vez que sairmos ao mar, tragam terra o bastante para me enterrar
For I don't want my final jig in the belly of a squid
- porque eu não quero meu canto final na barriga de uma lula
Take my trousers take my shirt, just give me that sweet dirt
- tirem minhas calças, tirem minha camisa, apenas me dêem aquela doce poeira
For the water's cold and grim and I never did learn to swim
- porque a água é fria e assustadora e eu nunca aprendi a nadar 

"Não tenho nada mais a perder." É o que eu vejo nosso pobre pescador declarar aqui. Ele quer morrer, sabe que vai, apenas pede que o enterrem, ao invés de lançá-lo ao mar. Ele não sabe nadar e tem medo d'água, então só pede que seu corpo não repouse por lá.

2. No her love never set me free so I set off for the ocean
- não, o amor dela nunca me libertou, então parti rumo ao oceano
Now in my dreams she comes to me, whispering of peace
- agora nos meus sonhos ela vem a mim me sussurando paz
But I've known since the day that we sailed for Santiago
- mas eu sabia desde o dia que embarcamos rumo a Santiago
Her dry embrace would kiss my face. No never, no more
- o abraço seco dela nunca mais beijaria meu rosto. não, nunca mais

The Sea is a Cruel Mistress - o mar é uma amante cruel

Aqui ele entende que o que fez foi um grande erro. Fugir de um amor não te faz esquecê-lo, muito menos deixar de amá-lo. No caso do nosso pescador, ele entende que nunca mais vai ver a mulher que ele ama e é aí que começa sua loucura.

3. Many moons to the day that I threw her love away
- muitas luas desde o dia em que eu joguei o amor dela fora
Now every whale spouts, "go to hell" as the wind laughs in my face
- agora toda baleia grita "vá pro inferno" enquanto o vento ri na minha cara
I've grown harder on the eyes and salty on the taste
- eu fiquei mais duro nos olhos e meu gosto mais salgado
My pride has gone with the wake as I wait a cold wet grave
- meu orgulho se foi com o wake* enquanto eu espero uma tumba fria e molhada

*wake: o rastro de água que fica atrás do navio à medida que ele navega.

A loucura o consumindo. Tire a esperança de um homem que não tem nada a perder e o caminho para esse estado mental é uma queda livre vertiginosa. Ele já enlouqueceu nesse ponto, consumido pela sua falta de objetivos. Tornou-se indiferente a tudo que acontece, o que foi refletido no "salgamento" do seu gosto e no "endurecimento" dos olhos. Agora tudo que ele faz é esperar sua morte. Nesse caso, a única coisa que traria paz à sua mente.

4. I rose to the smell of a wet desert hell
- eu me levantei ao cheiro de um inferno molhado e deserto
And I thought to myself how'd I wind up in this jail
- e pensei comigo mesmo como acabei aqui nessa cadeia?
Till a voice called to me from deep within the sea
- até que uma voz me chamou do fundo do mar
"Dry your eyes my dear fisherman your ass belongs to me "
- "Enxugue as lágrimas, meu querido pescador, seu traseiro me pertence!"

A morte. Quando ele cai de novo em si e tenta entender o que aconteceu, já é tarde demais. O mar o chama. Sentindo-se preso ali, ele se entrega. Levado à loucura por si mesmo, essa é a única solução para acabar com seu desespero.

5. The earth will rest my bones - a Terra vai repousar meus ossos
Lord I know, Lord I know - Senhor eu sei, Senhor eu sei
But I'll see you when I get home - mas te verei quando chegar em casa
From the cold, yeah from the cold - do frio, é, do frio

A paz. Agora ele vai conseguir descansar finalmente sua mente perturbada. Ele de novo passa a ter esperança de reencontrar sua mulher num outro plano. O único jeito de aliviar-se.

PORRA! A única coisa que eu pude dizer quando entendi a letra desse jeito foi isso: PORRA! Isso é foda demais! O jeito como ela te coloca dentro da mente dele, explorando o turbilhão pelo qual ele passava ao perceber que não tinha mais volta é perfeito. E por isso também assustador. Depois de ouvir essa música de novo, quantos de vocês não se sentiram tocados pelo que o nosso pescador estava sentindo?

Sério, caras (e moças). Não dá mesmo pra acreditar que "aposto um beijo que você me quer" tá fazendo sucesso. Não dá MESMO pra acreditar que rebolation faça sucesso. E definitivamente não dá pra acreditar que "lererê lerê" seja entoado aos quatro ventos em churrascos randoms. Perdoa-os, Lemmy, eles não sabem o que fazem!

(pra quem se interessar na banda, baixem esse cd aqui que é meu favorito e que contém essa música aí em cima: Link)

Update: Esqueci de mencionar, essa música é de 2002, não tão velha assim, vai.